quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

obrigada pelo nada


coloquei tua música no volume máximo, batuquei teu samba, te pensei, te sorri, te agradeci aliviada. obrigada por ter me feito te amar, num ontem distante, de forma tão dolorida, tão dramática, tão não-correspondida, tão chorosa. tu não é o, nem um, muito menos alguém. tu é a mensagem não lida, a cadeira vazia, o sonho iludido, a rua sem saída, a espera frustrada, o desgaste de sentir sozinha, a noite mal dormida e o enxame de lágrimas espalhadas pelos cantos, escondidas.


obrigada pela mão não dada, por não me deixar passar primeiro. obrigada por não me perguntar se estou com fome e por não querer saber como estou. obrigada por ter engolido aquele carinho por medo e pelo brilho reprimido no olhar. obrigada por me fazer interpretar errado tua entrelinha, por ser a hora errada. obrigada por não ler meu trejeito, por não me tratar.

se hoje a gargalhada faz parte do meu cotidiano, se o eu te amo sai leve e volta flutuando, se o sexo é orgasmicamente bem ajustado, se o companheirismo vai além de mãos dadas e se a cumplicidade respeita o eu e conjuga a primeira pessoa do plural com a certeza de que já está dando certo, parcela desse tanto é graças a tudo o que tu não me deu, que me ensinou que meu amor-próprio é uma massa densa de cor-colorida e gigante de doçura-doce que não cabe no infinito do teu vazio.

branca


aí chega um momento da tua vida que tu decide dar um passo adiante, decide morar junto, casar, juntar as escovas de dentes e as dívidas. e tu, que é filha de uma sociedade machista, com muita gente não sabendo lidar com seus quereres, mergulhada no medo e em outro tanto de coisas descabidas, consegue realizar a façanha de ser feliz, de ter um cotidiano bonito com alguém, bonito e respeitoso, bonito e livre. de qualquer maneira, o alheio não perdoa: namora? não serve mais pra amizade; juntou os trapo, então... deusulivre partilhar a vidinha sem graça na mesa dum bar. balada, nem se fala... tu te torna a personificação da empata-foda. não vou ousar imaginar quando entra filho na parada. entendo que são fases, entendo que são momentos, entendo que as energias mudam, mas, gente, o lado sem gracinha de cá tremula uma bandeira branca, com bordas de sorriso, afirmando: há vida. e coração.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

amor em caps lock


tem dias que estou (de)sintonizada do mundo. é estranho. “tu viu o que vão fazer com o pobre do tigre?”. não. “e aqueles pobres pais a sofrer à espera dos filhos adolescentes que fugiram?”. não. “e o dinheirão que gastaram fazendo aquele templo?” não.

na loja, a filha “para de me encher o saco, mãe”. no telefone, a vaidade “não é por mal, mas o que escrevo é uma das melhores coisas que se tem por aí”. na sala de espera, o adolescente não dobra as pernas para o senhor de bengala passar. bocas malucas por ouvidos. passos apressados pra chegar num nada que ecoa. dedos coçando pra apontar. vidas controladas e controladoras. rotina sem música. sapato desconfortável pra manter a pose. sorriso pálido pra selfie.

ontem dei um boa noite risonho pro frentista, meu cachorro-nelson latiu pra ele. ele gargalhou pelo nome do canino-amigo: “é o mesmo nome do meu pai”. deixou escapar um “quanto tempo faz que não dou risada deste jeito. eu me sinto tão sozinho”. deu vontade de abraçá-lo. e de chorar.


dá vontade de voltar. parar tudo e descer. voltar e descer sabe-se lá onde. qualquer lugar onde olhos se toquem em essência. que o AMOR em caps lock mova.

terça-feira, 22 de julho de 2014

respira.dor


viramos prisioneiros de nós mesmos, mergulhados na solitária de portas abertas que nosso passado nos condenou. “não me abro, porque já me doeu. não sinto, porque já me doeu. não vivo, porque já me doeu.” então, melhor ficar assim, sem riscos, sem dor. e sem vida. no piloto automático. 

no respira.dor.

nos permitimos viver histórias vagas para sanar carências naturais que aparecem no meio do nosso cotidiano automático, apressado. e vazio. mas com a garantia de não existir dor. nem amor. e na profundidade de histórias que dão certo e são atropeladas por instintos mal conduzidos, nos marcamos feito tatuagem mal feita, cicatriz de queimadura. até nos acostumamos com a marca, mas a textura do coração nunca mais é a mesma.

a vida é tão rara. e tão breve. e ao mesmo tempo, tão delicada. mesmo assim, vestimos a inconsequência e nos maltratamos como se não houvesse amanhã. colocamos línguas dentro de nossas bocas, acarinhamos peles esquecendo que são abrigos de essências. metemos paus dentro de nós. e enfiamos paus dentro de buracos. 

no meio disso tudo, quando o amor dá as caras, nos fechamos. não sabemos (ou não queremos) lidar. desaprendemos, porque entramos na onda do “não quero me apegar”, do “não abro mão da minha liberdade”. pelo caminho dessa excursão adolescente, avistamos paisagens que não sabemos o nome. cumplicidade. verdade. bondade. 

“loves” são tatuados em pulsos, amortecendo batidas nos corações em coma. viver junto é sinônimo de sacrifício. partilhar a vida, então, praticamente um matadouro.  e lá dentro, nos miolos desvairados, o que fica na lembrança é aquele amor que teve tudo isso que julgamos “ruim”, e que acabou de forma doída. ou doida. ou as duas coisas. e que, mesmo assim, ainda tem o nome de saudade. aí seguimos a vida assim, acessando aquela pasta de imagens com o nome de passado, revendo fotos que abrigam apenas a parte boa, aquele vento nos cabelos, aquela luz entrando no quarto, aquela viagem pra serra, sem bafo, sem conflito, sem dor. e coçando nossa tatuagem mal feita com agulha de tricô.


quarta-feira, 9 de julho de 2014

amores.




no primeiro encontro, o amor de filme te canta um jazz ao pé do ouvido e te baila no asfalto. o amor real te leva prum lugar bonito pra fazer as honras e te conversa com sorriso.

quando tu olha prum amor de filme, tu sabe que será de filme, porque os olhares se cruzam e dói. e tu sabe que aquela história vai te doer o resto da vida ao relembrar daquele olhar. o olhar de um amor real te traz uma segurança quentinha, confortante, uma vontade de caminhar no sol e de dormir junto.

amor de filme é balão de coração numa mão e torta de limão na outra, à meia noite, esperando no portão. amor real é “coloca um casaco que tá frio e vem logo que tô te esperando”.

amor de filme é traduzir um sentimento com uma música. amor real é conversa pra organizar a vida com aquele novo sentir.

amor de filme é plano. amor real é ação.

amor de filme é silêncio. amor real é palavra.

amor de filme é viagem com vento no rosto e trilha sonora. amor real é juntar a grana pra prolongar a estadia e aproveitar o lugar.

amor de filme é piquenique sem comida de madrugada naquele parque bonito. amor real é compras no mercado e filme no sofá.

amor de filme é tu cozinha e eu toco violão. amor real é “tu cozinha e eu lavo”.

amor de filme é coração batendo na boca ao ver o telefone tocar. amor real é “bom dia, delícia, vamos programar nossa noite”.

amor de filme é saudade sem fim. amor real é querer estar junto pra melhor se conhecer e mais se querer.

o amor de filme pode ser real se ele resistir aos entraves do cotidiano. o amor real pode ser de filme se ele aguçar o olhar e o tumtum pros detalhes bonitos um do outro.


e aí. qual tu quer pro teu existir hoje?

sexta-feira, 6 de junho de 2014

quero



quero olhos que respirem vontade de existir junto. de partilhar bons dias e boas noites, de ser cúmplice no cotidiano, no velho e no novo, no amanhã bonito. quero braços que me ninem e me prendam pra coceguear. quero manada de borboleta no estômago sendo alimentada por amor doce. e correspondido. e querido. quero voz ao pé do ouvido com promessas impossíveis já cumpridas. ouvidos com pés que caminhem no interesse do que sou em essência. quero trocar figurinha repetida (troco a mais disputada do álbum por um caminhar de mãos dadas, palma com palma. nada de mindinhos entrelaçados). quero verdade. e mentira pra fazer surpresa no meio do dia. quero clichê, tum-tum de paixão mergulhado num silêncio de amor.

chega de olhos em coma. de braços cruzados. de borboletas desnutridas. de voz murcha e pés nas alturas fugindo do chão lamacento. de mãos levianas. de corações de nitrogênio. de existir inexistindo.


chega.

terça-feira, 3 de junho de 2014

ocaso



me beijou. salivava a certeza de que aquilo já tinha acontecido.
praticamente um re-beijo. um reencontro.
me senti em casa naquele abraço de ocaso. de acaso.
olhos negros de bondade luminosa me acarinharam a alma.
naquela parede azul, o sol deu mais vida às fotos. 
o cobertor vermelho. 
ele, ali, sentado na poltrona, fumando silêncio.
aquilo tudo já era tão meu que não tive tempo de me assustar. 
o amor me ninou.
“deixa eu cuidar de ti?”
o sol se pôs. 
adormeci. ou acordei.