quinta-feira, 26 de abril de 2012

pétala



ela levantou antes do sol preguiçoso do outono. não ia arrumar a cama.
"ah, não. não vou me entregar de manhã cedo. não mesmo" – pensou em voz alta, ainda sonolenta.
estendeu a cama, recolheu as meias, que sempre saem dos seus pés e passeiam pela madrugada.
o ontem dela tinha sido ansiado, desconfortável. e não era o sutiã que estava apertando o seu peito. ela realmente estava com o peito apertado. pura saudade. saudade pura.
a leveza do caminhar dela é tamanho que muitos cochicham "não pode ser de verdade" pelos cantos. e ela? ela nem pelota pro que falam por aí, por aqui, por acolá.
hoje ela acordou e prometeu pra ela mesma que não permitiria aquele peito apertado e, se a saudade fazia tanta questão de ficar, que ficasse numa boa, sem desconforto.
colocou seu castelhano a tocar. os primeiros acordes de pétalo de sal a fizeram chorar. um choro bonito. uma saudade bonita. um "obrigada" por estar viva mais bonito ainda.
volta e meia chove chuva triste. e ela vai embora dela.
aquela ânsia, aquele cinza. aquele pessimismo.
nada daquilo era ela. nada daquilo era dela.
sentiu-se eufórica.
ele pediu "y tu podrias darme fé".
e ela assim o fez.
ela estava de volta.
(em tempo, o sol apareceu. nunca é tarde.)

terça-feira, 24 de abril de 2012

(re)encontro


ela me colocou no seu abraço, como se o tempo não tivesse passado, como se eu não a tivesse feito doer por todo esse tempo.
chorei. um choro de dor. de suspiro. um choro de gratidão.
gratidão por ela estar ali, por eu estar ali.
eu estava débil, magro, feio, doente. e os olhos dela me olhavam como se eu tivesse com a camisa rosa preferida dela, que eu colocava só pra ela.
não consegui falar muito. não queria falar o que eu tinha pra falar, o que ela queria que eu falasse... por onde andei, porque andei...
eu estava aliviado. eu estava com medo. e ela estava ali, diante dos meus olhos ainda mareados.
ela transpirou espanto ao ver minha situação. "é nervosismo" – ela falou, já sabendo que eu não estava acreditando.
meu choro encharcou a camiseta. e ela estava ali, tão  linda, tão inexplicavelmente ainda minha, com a blusinha que eu tinha dado pra ela, com um escapulário novo e unhas pintadas com o esmalte que eu sempre pedia pra ela pintar, um verde diferente. eu sei que ela escolheu tudo a dedo, pra testar meu grau de sanidade.
por um instante, não, na maioria da brevidade do nosso encontro, eu pensava que aquilo era imaginação, reação adversa. só podia ser. ela não podia estar ali.
não posso dizer que um turbilhão passou pela minha cabeça, que um filme passou pelos meus olhos, porque nada disso aconteceu. porque eu estava vazio. porque ela estava bem ali, na minha frente.
cheguei perto, guardei seu rosto com as duas mãos, tateei seu espírito.
ela me beijou. a boca doce de chiclete de sempre. o meu hálito doente.
uni as migalhas de força que eu tinha espalhadas em mim e agradeci com intensidade. com o coração.
eu ia chorar de novo, mas ela saiu das minhas mãos, fez pose de menina "tu nem notou que eu tô de cabelo novo"... essa minha pequeninha... me fez sorrir. estranhei a alegria. não lembrava o que era aquilo.
ela foi embora. antes, me beijou de novo. e deixou tudo leve.
chamei ela de amor, como se o tempo não tivesse passado, e pedi que ela não largasse a minha mão.
não esperei a resposta. saí.
não queria saber a resposta. não queria vê-la partindo.

domingo, 22 de abril de 2012

coisas pequenas

ela tomou café da manhã sozinha,
sozinha, não, o pequeno príncipe da caneca a acompanhava com cara de cerâmica.
bateu seu café, como sempre fazia nos finais de semana.
comeu seus beijinhos de freira com certo desgosto, algo de amargura.
ligou o rádio. 
ele faz falta.
o silêncio dele faz falta.
o escrever dele na mesa com os dedos, colocando no mundo o que ele pensa, faz falta.
sentiu vontade de oferecer um mimo pra alguém, um carinho. 
o cachorro pediu atenção, e negou o seu biscoito.
talvez faria um café bem cremoso e esperaria ele levantar. ele não viria. ele não estava ali.
o sorriso dele faz falta.
o tom de voz dele faz falta.
o levantar rápido dele, incompatível com a preguicinha dela pela manhã, faz falta.
vai ao banheiro, com a porta aberta.
se ele tivesse ali, ele falaria: fecha essa porta, porque tu não mora numa oca! ela daria risada e fecharia a porta (mal sabe ele que ela só deixava a porta aberta para ouvi-lo falar isso).
a vida segue.
tudo no seu tempo certo.
acreditar no mundo, na energia que o faz girar é uma confiança difícil de li(dar).
o pensamento segue conectado, o coração também.
valor nas pequenas coisas, nas pequenas mesmo, é o pensamento que permeia o resto do dia dela, que segue com o seu melhor sorriso no seu rosto angelical-quase-triste.
não se deixa desanimar – ele pedia pra ela em pensamento de brisa.
pensou nas perdas de tempo que o mundo se sujeitava por medo, por orgulho. sentiu vontade de se arrepender por tudo o que já teve vontade de fazer por-para ele e não fez. junto, sentiu vontade de viver.
e assim o fez.