quinta-feira, 7 de agosto de 2014

amor em caps lock


tem dias que estou (de)sintonizada do mundo. é estranho. “tu viu o que vão fazer com o pobre do tigre?”. não. “e aqueles pobres pais a sofrer à espera dos filhos adolescentes que fugiram?”. não. “e o dinheirão que gastaram fazendo aquele templo?” não.

na loja, a filha “para de me encher o saco, mãe”. no telefone, a vaidade “não é por mal, mas o que escrevo é uma das melhores coisas que se tem por aí”. na sala de espera, o adolescente não dobra as pernas para o senhor de bengala passar. bocas malucas por ouvidos. passos apressados pra chegar num nada que ecoa. dedos coçando pra apontar. vidas controladas e controladoras. rotina sem música. sapato desconfortável pra manter a pose. sorriso pálido pra selfie.

ontem dei um boa noite risonho pro frentista, meu cachorro-nelson latiu pra ele. ele gargalhou pelo nome do canino-amigo: “é o mesmo nome do meu pai”. deixou escapar um “quanto tempo faz que não dou risada deste jeito. eu me sinto tão sozinho”. deu vontade de abraçá-lo. e de chorar.


dá vontade de voltar. parar tudo e descer. voltar e descer sabe-se lá onde. qualquer lugar onde olhos se toquem em essência. que o AMOR em caps lock mova.

terça-feira, 22 de julho de 2014

respira.dor


viramos prisioneiros de nós mesmos, mergulhados na solitária de portas abertas que nosso passado nos condenou. “não me abro, porque já me doeu. não sinto, porque já me doeu. não vivo, porque já me doeu.” então, melhor ficar assim, sem riscos, sem dor. e sem vida. no piloto automático. 

no respira.dor.

nos permitimos viver histórias vagas para sanar carências naturais que aparecem no meio do nosso cotidiano automático, apressado. e vazio. mas com a garantia de não existir dor. nem amor. e na profundidade de histórias que dão certo e são atropeladas por instintos mal conduzidos, nos marcamos feito tatuagem mal feita, cicatriz de queimadura. até nos acostumamos com a marca, mas a textura do coração nunca mais é a mesma.

a vida é tão rara. e tão breve. e ao mesmo tempo, tão delicada. mesmo assim, vestimos a inconsequência e nos maltratamos como se não houvesse amanhã. colocamos línguas dentro de nossas bocas, acarinhamos peles esquecendo que são abrigos de essências. metemos paus dentro de nós. e enfiamos paus dentro de buracos. 

no meio disso tudo, quando o amor dá as caras, nos fechamos. não sabemos (ou não queremos) lidar. desaprendemos, porque entramos na onda do “não quero me apegar”, do “não abro mão da minha liberdade”. pelo caminho dessa excursão adolescente, avistamos paisagens que não sabemos o nome. cumplicidade. verdade. bondade. 

“loves” são tatuados em pulsos, amortecendo batidas nos corações em coma. viver junto é sinônimo de sacrifício. partilhar a vida, então, praticamente um matadouro.  e lá dentro, nos miolos desvairados, o que fica na lembrança é aquele amor que teve tudo isso que julgamos “ruim”, e que acabou de forma doída. ou doida. ou as duas coisas. e que, mesmo assim, ainda tem o nome de saudade. aí seguimos a vida assim, acessando aquela pasta de imagens com o nome de passado, revendo fotos que abrigam apenas a parte boa, aquele vento nos cabelos, aquela luz entrando no quarto, aquela viagem pra serra, sem bafo, sem conflito, sem dor. e coçando nossa tatuagem mal feita com agulha de tricô.


quarta-feira, 9 de julho de 2014

amores.




no primeiro encontro, o amor de filme te canta um jazz ao pé do ouvido e te baila no asfalto. o amor real te leva prum lugar bonito pra fazer as honras e te conversa com sorriso.

quando tu olha prum amor de filme, tu sabe que será de filme, porque os olhares se cruzam e dói. e tu sabe que aquela história vai te doer o resto da vida ao relembrar daquele olhar. o olhar de um amor real te traz uma segurança quentinha, confortante, uma vontade de caminhar no sol e de dormir junto.

amor de filme é balão de coração numa mão e torta de limão na outra, à meia noite, esperando no portão. amor real é “coloca um casaco que tá frio e vem logo que tô te esperando”.

amor de filme é traduzir um sentimento com uma música. amor real é conversa pra organizar a vida com aquele novo sentir.

amor de filme é plano. amor real é ação.

amor de filme é silêncio. amor real é palavra.

amor de filme é viagem com vento no rosto e trilha sonora. amor real é juntar a grana pra prolongar a estadia e aproveitar o lugar.

amor de filme é piquenique sem comida de madrugada naquele parque bonito. amor real é compras no mercado e filme no sofá.

amor de filme é tu cozinha e eu toco violão. amor real é “tu cozinha e eu lavo”.

amor de filme é coração batendo na boca ao ver o telefone tocar. amor real é “bom dia, delícia, vamos programar nossa noite”.

amor de filme é saudade sem fim. amor real é querer estar junto pra melhor se conhecer e mais se querer.

o amor de filme pode ser real se ele resistir aos entraves do cotidiano. o amor real pode ser de filme se ele aguçar o olhar e o tumtum pros detalhes bonitos um do outro.


e aí. qual tu quer pro teu existir hoje?

sexta-feira, 6 de junho de 2014

quero



quero olhos que respirem vontade de existir junto. de partilhar bons dias e boas noites, de ser cúmplice no cotidiano, no velho e no novo, no amanhã bonito. quero braços que me ninem e me prendam pra coceguear. quero manada de borboleta no estômago sendo alimentada por amor doce. e correspondido. e querido. quero voz ao pé do ouvido com promessas impossíveis já cumpridas. ouvidos com pés que caminhem no interesse do que sou em essência. quero trocar figurinha repetida (troco a mais disputada do álbum por um caminhar de mãos dadas, palma com palma. nada de mindinhos entrelaçados). quero verdade. e mentira pra fazer surpresa no meio do dia. quero clichê, tum-tum de paixão mergulhado num silêncio de amor.

chega de olhos em coma. de braços cruzados. de borboletas desnutridas. de voz murcha e pés nas alturas fugindo do chão lamacento. de mãos levianas. de corações de nitrogênio. de existir inexistindo.


chega.

terça-feira, 3 de junho de 2014

ocaso



me beijou. salivava a certeza de que aquilo já tinha acontecido.
praticamente um re-beijo. um reencontro.
me senti em casa naquele abraço de ocaso. de acaso.
olhos negros de bondade luminosa me acarinharam a alma.
naquela parede azul, o sol deu mais vida às fotos. 
o cobertor vermelho. 
ele, ali, sentado na poltrona, fumando silêncio.
aquilo tudo já era tão meu que não tive tempo de me assustar. 
o amor me ninou.
“deixa eu cuidar de ti?”
o sol se pôs. 
adormeci. ou acordei.


quarta-feira, 23 de abril de 2014

e foi


decidiu relaxar. sair daquela espera à toa. ele foi claro: acabou. depois disso, ela só fez desesperar. o tempo não passava. o violão que repousa na sala virou assombração. por todo o canto daquele apartamento tinha ele tocando daquele jeito gostoso “posso até me acostumar”, com uma caretinha toda dele que dava vontade de viver. e com um sentimento que vinha lá de dentro daquele coração bonito que vestia uma cara de vilão. mas que ela não caía, não, ela sabia que aquilo era só esconderijo. quando o sol atropelava o quarto de paz que os dois dormiam abraçados, ela saboreava a essência dele enquanto ele dormia. e se esbaldava. ali, o tempo parava, mandava desacelerar e viver de amor. e mais nada. ela obedecia.

en(fim). tudo aquilo tinha acontecido. e tinha acabado. ela não queria mais se doer ao lamentar o não para a plenitude que ela tinha a oferecer pra ele, personificada em torta de limão. “tudo tem seu tempo” – o cachorro parecia dizer enquanto ela chorava sentada no chão, ao lado do já maldito violão. colocou o celular no silencioso, encima da mesa, com o visor virado para baixo, jogo bobo com ela mesma para não mais esperá-lo. e fingiu seguir.

uma espiadela.
era ele. “vem pra mim”.

ela chorou saudade. guardou na gaveta a dor daqueles dias que o calendário não registrou. 
e foi.


quinta-feira, 17 de abril de 2014

abrazo


quando ele entrou no meu carro e, num nervoso absurdo, me deu um abraço trêmulo, ali, com o pisca-alerta ligado, escondendo meu nervosismo com um falatório bobo e um riso flutuante, ali, eu já sabia. é ele.

enquanto eu já imaginava mãos dadas num clichê ideal de felicidade, ele colocava açúcar no café – “não tomo café com açúcar”. eu ri e cumpri o combinado: um abraço a cada nervosismo que o impedisse de se mover. mal sabia ele que o abraço era pra manter meus pés no chão, caso contrário, miraria aquele café de palavra do alto. miraríamos, pois, naquele momento, eu já estava levando ele por onde quer que eu fosse.

ele cantou jazz no meu ouvido e me bailou em plena avenida. sim, eu sei, coisa de filme. e naquele cheiro amadeirado, naquela barba macia, naquele cabelo bagunçado e naquele coração bonito eu ficaria a vida inteira. sem exagero. a vida inteira.

nossa parecência fez meus olhos assustar. aquilo que eu pensei nunca mais ter a chance de sentir, lá já estava, de mala, cuida, esteira e chapéu dentro do meu peito.

“o que fazemos agora com tudo isso?” – me perguntou com o mesmo susto nos olhos.


chorei amor e não respondi. pedi um abraço sem pedir.

terça-feira, 11 de março de 2014

A(M)dORmecer


eles não fecham os olhos e adormecem bonitamente, como nos ideais dos nossos quereres que as malditas (e gostosas) comédias românticas nos enfiam goela abaixo. eles deitam. ela se mexe e remexe. ele dá uns tremiliques que a faz pensar “peraí, mas quem faz isso sou eu ou ele?”. ela deita no peito dele e não pode fazer carinho com a ponta dos dedos, senão ele grita de cócegas. antes de dormir, não trocam juras de amor, brigam por besteira. E cansaço. parece que não querem perder tempo dormindo, podendo estar ali, juntos, mas o corpo não obedece. ela, com uma manha infantil quase charmosa. ele, com o ranço característico que a faz dar risada e se enamorar uma pitada mais. se abraçam e desabraçam. ela, cobertor, ele, sempre calor. no meio da madrugada, ela sorri ao tentar tirar o braço que o está abraçando. é surpreendida com uma força involuntária dele ao segurá-la. essa segurança é um “não sai daqui” que ela gosta que se enrosca. ela sorri. e não sai dali. se dormem com uma harmonia bagunçada, uma intimidade certeira que sussurra “estamos exatamente onde devemos estar”.