quarta-feira, 23 de abril de 2014

e foi


decidiu relaxar. sair daquela espera à toa. ele foi claro: acabou. depois disso, ela só fez desesperar. o tempo não passava. o violão que repousa na sala virou assombração. por todo o canto daquele apartamento tinha ele tocando daquele jeito gostoso “posso até me acostumar”, com uma caretinha toda dele que dava vontade de viver. e com um sentimento que vinha lá de dentro daquele coração bonito que vestia uma cara de vilão. mas que ela não caía, não, ela sabia que aquilo era só esconderijo. quando o sol atropelava o quarto de paz que os dois dormiam abraçados, ela saboreava a essência dele enquanto ele dormia. e se esbaldava. ali, o tempo parava, mandava desacelerar e viver de amor. e mais nada. ela obedecia.

en(fim). tudo aquilo tinha acontecido. e tinha acabado. ela não queria mais se doer ao lamentar o não para a plenitude que ela tinha a oferecer pra ele, personificada em torta de limão. “tudo tem seu tempo” – o cachorro parecia dizer enquanto ela chorava sentada no chão, ao lado do já maldito violão. colocou o celular no silencioso, encima da mesa, com o visor virado para baixo, jogo bobo com ela mesma para não mais esperá-lo. e fingiu seguir.

uma espiadela.
era ele. “vem pra mim”.

ela chorou saudade. guardou na gaveta a dor daqueles dias que o calendário não registrou. 
e foi.


quinta-feira, 17 de abril de 2014

abrazo


quando ele entrou no meu carro e, num nervoso absurdo, me deu um abraço trêmulo, ali, com o pisca-alerta ligado, escondendo meu nervosismo com um falatório bobo e um riso flutuante, ali, eu já sabia. é ele.

enquanto eu já imaginava mãos dadas num clichê ideal de felicidade, ele colocava açúcar no café – “não tomo café com açúcar”. eu ri e cumpri o combinado: um abraço a cada nervosismo que o impedisse de se mover. mal sabia ele que o abraço era pra manter meus pés no chão, caso contrário, miraria aquele café de palavra do alto. miraríamos, pois, naquele momento, eu já estava levando ele por onde quer que eu fosse.

ele cantou jazz no meu ouvido e me bailou em plena avenida. sim, eu sei, coisa de filme. e naquele cheiro amadeirado, naquela barba macia, naquele cabelo bagunçado e naquele coração bonito eu ficaria a vida inteira. sem exagero. a vida inteira.

nossa parecência fez meus olhos assustar. aquilo que eu pensei nunca mais ter a chance de sentir, lá já estava, de mala, cuida, esteira e chapéu dentro do meu peito.

“o que fazemos agora com tudo isso?” – me perguntou com o mesmo susto nos olhos.


chorei amor e não respondi. pedi um abraço sem pedir.