terça-feira, 22 de julho de 2014

respira.dor


viramos prisioneiros de nós mesmos, mergulhados na solitária de portas abertas que nosso passado nos condenou. “não me abro, porque já me doeu. não sinto, porque já me doeu. não vivo, porque já me doeu.” então, melhor ficar assim, sem riscos, sem dor. e sem vida. no piloto automático. 

no respira.dor.

nos permitimos viver histórias vagas para sanar carências naturais que aparecem no meio do nosso cotidiano automático, apressado. e vazio. mas com a garantia de não existir dor. nem amor. e na profundidade de histórias que dão certo e são atropeladas por instintos mal conduzidos, nos marcamos feito tatuagem mal feita, cicatriz de queimadura. até nos acostumamos com a marca, mas a textura do coração nunca mais é a mesma.

a vida é tão rara. e tão breve. e ao mesmo tempo, tão delicada. mesmo assim, vestimos a inconsequência e nos maltratamos como se não houvesse amanhã. colocamos línguas dentro de nossas bocas, acarinhamos peles esquecendo que são abrigos de essências. metemos paus dentro de nós. e enfiamos paus dentro de buracos. 

no meio disso tudo, quando o amor dá as caras, nos fechamos. não sabemos (ou não queremos) lidar. desaprendemos, porque entramos na onda do “não quero me apegar”, do “não abro mão da minha liberdade”. pelo caminho dessa excursão adolescente, avistamos paisagens que não sabemos o nome. cumplicidade. verdade. bondade. 

“loves” são tatuados em pulsos, amortecendo batidas nos corações em coma. viver junto é sinônimo de sacrifício. partilhar a vida, então, praticamente um matadouro.  e lá dentro, nos miolos desvairados, o que fica na lembrança é aquele amor que teve tudo isso que julgamos “ruim”, e que acabou de forma doída. ou doida. ou as duas coisas. e que, mesmo assim, ainda tem o nome de saudade. aí seguimos a vida assim, acessando aquela pasta de imagens com o nome de passado, revendo fotos que abrigam apenas a parte boa, aquele vento nos cabelos, aquela luz entrando no quarto, aquela viagem pra serra, sem bafo, sem conflito, sem dor. e coçando nossa tatuagem mal feita com agulha de tricô.


quarta-feira, 9 de julho de 2014

amores.




no primeiro encontro, o amor de filme te canta um jazz ao pé do ouvido e te baila no asfalto. o amor real te leva prum lugar bonito pra fazer as honras e te conversa com sorriso.

quando tu olha prum amor de filme, tu sabe que será de filme, porque os olhares se cruzam e dói. e tu sabe que aquela história vai te doer o resto da vida ao relembrar daquele olhar. o olhar de um amor real te traz uma segurança quentinha, confortante, uma vontade de caminhar no sol e de dormir junto.

amor de filme é balão de coração numa mão e torta de limão na outra, à meia noite, esperando no portão. amor real é “coloca um casaco que tá frio e vem logo que tô te esperando”.

amor de filme é traduzir um sentimento com uma música. amor real é conversa pra organizar a vida com aquele novo sentir.

amor de filme é plano. amor real é ação.

amor de filme é silêncio. amor real é palavra.

amor de filme é viagem com vento no rosto e trilha sonora. amor real é juntar a grana pra prolongar a estadia e aproveitar o lugar.

amor de filme é piquenique sem comida de madrugada naquele parque bonito. amor real é compras no mercado e filme no sofá.

amor de filme é tu cozinha e eu toco violão. amor real é “tu cozinha e eu lavo”.

amor de filme é coração batendo na boca ao ver o telefone tocar. amor real é “bom dia, delícia, vamos programar nossa noite”.

amor de filme é saudade sem fim. amor real é querer estar junto pra melhor se conhecer e mais se querer.

o amor de filme pode ser real se ele resistir aos entraves do cotidiano. o amor real pode ser de filme se ele aguçar o olhar e o tumtum pros detalhes bonitos um do outro.


e aí. qual tu quer pro teu existir hoje?