sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Minha rotina foi atropelada por um turbilhão de pensamento, sentimento, compaixão, resultando num soluço incontrolável. Começo o meu texto desvalorizando-o, pois tenho certeza de que não conseguirei expressar 10% do que senti.

Fui atropelada por um conhecido. Poderia escrever que ele é meu amigo de infância, se não tivéssemos feito escolhas diferentes em nossas vidas. Contudo, eu sei que ele é ele e ele sabe que eu sou eu há muito tempo. Anos. Mais de uma década. Ele foi espancado por uns caras e largado num banhado, onde lá ficou por 3 dias agonizando de dor. Foi encontrado por moradores da redondeza, que acharam que ele estava morto. Mas ele não estava morto. Estava vivo. E bem vivo. Perdeu massa cefálica, perdeu os movimentos, vegetou por alguns dias no hospital. Passou por cirurgias. Recebeu alta. Voltou pra casa. Não recuperou a massa cefálica, mas recuperou os movimentos. Caminha com dificuldade, com deficiência. Seus olhos demonstram debilidade, passividade, prisão.

Querem saber o motivo do espancamento? No auge da fissura pelo crack, ele assaltou um cara. Por “sorte”, o cara era protegido dos traficantes, os mesmos que trocariam o que ele roubou do protegido por droga. Por crack. O círculo é gigantesco. E para no mesmo lugar. Tranca no mesmo lugar, pelo mesmo motivo. Pela pedra.

“Ah, tinha mais é que ser espancado, ladrão filho da puta”. Sim, muitos podem dizer isso com toda a razão. Com a razão deles.

Eu não digo nada, não disse nada. Minha vontade era de pedir licença para o mundo e dar um abraço nele, falar sem falar que ele não é um excluído, que a dor dele é a dor de muitos, que eu entendo ele. Enfim. Mas não falei nada. Só chorei baixo, abafado.

O crack é um dedo gordo e pesado que aperta no botão que desativa a moral, a distinção do certo e do errado, desativa a boa índole, o bom caráter, a vergonha na cara. Pluft! Tudo some. Tudo consome. É consumido. Consumível. As roupas, inclusive as que estão tapando o corpo, as lembranças da pessoa amada, o carro zero quilômetro, a fiação da rua, o liquidificador da mãe, o seguro desemprego, as meias da irmã, o note book da empresa. TUDO. E tem mais. Além de tudo ser consumível, digno de ser trocado por droga, tem outra moeda, o penhor. Aí entram os documentos do carro, o cartão do banco, identidade, carteira de trabalho, chave da casa. Tudo meramente simbólico, um compromisso de voltar na boca e pagar o preço que eles determinarem. “Se fode, mano, eu disse que era 21 pila pra pegar de volta o teu CPF, mas agora decidi que é 211. Consegue essa grana, senão eu te estóro. Não me vem com chororô. O problema é teu. Quem mandou cair na pedra.” Aí o cidadão, que mais parece um bicho seguindo seus instintos de necessidade, já sem um pingo de condições e forças para sair do buraco que se meteu, pois já percorreu o centro da cidade de pés descalços, já que as havaianas que encontrou no lixo ele trocou por crack numa boca bagaceira que aceita qualquer merda, corre atrás da grana. Agora é o miolo dele que está em jogo. Pelo caminho, a zumbizada fornece o combustível “na parceria”. Nessas horas, o cara não tem mais família, pensamento, coração. É puro instinto. É puro crack.

E não estou falando do moleque que mora na rua. Tô falando de dependentes químicos que passam por nós diariamente e são confundidos com mendigos, com pessoas totalmente diferentes de nós, quando na verdade são nós. Sem contar aqueles que conseguem se embretar em alguma casa de algum jornalista famoso que também tá no crack e que abre as portas do apê ex-badalado, agora vazio, com colchões sujos espalhados pelo chão, para quem quiser entrar e se refugiar como ele. É a solidariedade da droga.

Esses dependentes químicos não estão distantes da gente. São anônimos que já foram protagonistas de suas vidas. Vidas plenas. Cheirosas. Com comida no prato, tênis de marca no pé, lençóis limpos a embalar o sono, palavras corretas saindo da boca com hálito de pasta de dente e círculo social risonho.

Ei, chega de se enganar, chega de ter vergonha de falar sobre isso, de confessar que está passando por isso, que já passou por isso e que doeu, está doendo, e doerá para sempre. PARA SEMPRE. O reflexo do crack não é uma fotografia de um modelo caído numa sarjeta, com olheiras feitas a lápis e cenário de isopor. Que tal pensarmos sobre o crack ao invés de crack nem pensar?

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