quinta-feira, 11 de abril de 2013

pracinha




Passar pela mesma rua que morou na minha infância, nas minhas ansiadas idas à pracinha com meu avô é nostálgico. É dolorido. Impossível não ser. 

Parece que o sol é diferente na infância. É mais claro, mais definido. Lembro que ele ia caminhando me buscar pra me levar na pracinha. Sem camisa, bermudinha, cabelo branco-acizentado-violeta. Lembro do cheiro do suor dele, que sempre vinha junto um abraço molhado e alegre, seguido pelo saudoso tapa na bunda.

E lá íamos nós pra pracinha. Minha mãozinha sempre grudada na mãozona de cigarro dele. As unhas dele eram largas. Nunca vou me esquecer. O atravessar a rua era uma aventura. Passávamos pelas encruzilhadas clássicas do Jardim Leopoldina e ele sempre dava o Salve dele pros despachos – “se for pro bem, que a Tua vontade seja feita, se for pro mal, que não passe de sujeira jogada na rua” – ele dizia.

Naquele tempo (não sei se ainda hoje isso é feito), colocava-se uma cruz no local onde algum ente querido tinha morrido. E na praça México tinha uma cruz dessas, sempre florida, sempre bem cuidada. Lembro que um dia ele me explicou isso e, juntos, rezamos pela alma daquele gurizinho. Impossível esquecer.

No alto da praça tinha (e ainda tem) uma figueira. Mais tarde soube que ela abrigava histórias mal assombradas das mais cabeludas. Pra mim, pra nós, sempre foi o nosso objetivo de chegada: enxergar a pracinha toda lááá do alto e até o meu apartamento – “abana lá pra tua mãe que tá na janela”.

Depois da pracinha tinha a ida na vó, que tava em casa sempre fazendo uma coisa ou outra, sempre ocupada com uma coisa ou outra, e também sempre com alguma coisa bem gostosa pra gente comer. Coisa boa fome de pracinha.

Depois que tu foi embora, vô, eu nunca, nunca mais fui a mesma. Agora sei porque temos que ser tão plenos, preenchidos de coisas boas. Porque toda a vez que alguém que a gente ama muito vai embora, um pedaço da gente vai junto. Definitivamente, vai junto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário