viramos prisioneiros de nós
mesmos, mergulhados na solitária de portas abertas que nosso passado nos condenou. “não me abro,
porque já me doeu. não sinto, porque já me doeu. não vivo, porque já me doeu.”
então, melhor ficar assim, sem riscos, sem dor. e sem vida. no piloto
automático.
no respira.dor.
nos permitimos viver histórias
vagas para sanar carências naturais que aparecem no meio do nosso cotidiano
automático, apressado. e vazio. mas com a garantia de não existir dor. nem
amor. e na profundidade de histórias que dão certo e são atropeladas por
instintos mal conduzidos, nos marcamos feito tatuagem mal feita, cicatriz de
queimadura. até nos acostumamos com a marca, mas a textura do coração nunca
mais é a mesma.
a vida é tão rara. e tão breve. e
ao mesmo tempo, tão delicada. mesmo assim, vestimos a inconsequência e nos
maltratamos como se não houvesse amanhã. colocamos línguas dentro de nossas bocas,
acarinhamos peles esquecendo que são abrigos de essências. metemos paus dentro
de nós. e enfiamos paus dentro de buracos.
no meio disso tudo, quando o amor dá
as caras, nos fechamos. não sabemos (ou não queremos) lidar. desaprendemos,
porque entramos na onda do “não quero me apegar”, do “não abro mão da minha
liberdade”. pelo caminho dessa excursão adolescente, avistamos paisagens que
não sabemos o nome. cumplicidade. verdade. bondade.
“loves” são tatuados em
pulsos, amortecendo batidas nos corações em coma. viver junto é sinônimo de
sacrifício. partilhar a vida, então, praticamente um matadouro. e lá dentro, nos miolos desvairados, o que
fica na lembrança é aquele amor que teve tudo isso que julgamos “ruim”, e que
acabou de forma doída. ou doida. ou as duas coisas. e que, mesmo assim, ainda
tem o nome de saudade. aí seguimos a vida assim, acessando aquela pasta de
imagens com o nome de passado, revendo fotos que abrigam apenas a parte boa, aquele
vento nos cabelos, aquela luz entrando no quarto, aquela viagem pra serra, sem
bafo, sem conflito, sem dor. e coçando nossa tatuagem mal feita com agulha de
tricô.

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