tem dias que
estou (de)sintonizada do mundo. é estranho. “tu viu o que vão fazer com o pobre
do tigre?”. não. “e aqueles pobres pais a sofrer à espera dos filhos
adolescentes que fugiram?”. não. “e o dinheirão que gastaram fazendo aquele
templo?” não.
na loja, a
filha “para de me encher o saco, mãe”. no telefone, a vaidade “não é por mal,
mas o que escrevo é uma das melhores coisas que se tem por aí”. na sala de
espera, o adolescente não dobra as pernas para o senhor de bengala passar.
bocas malucas por ouvidos. passos apressados pra chegar num nada que ecoa.
dedos coçando pra apontar. vidas controladas e controladoras. rotina sem
música. sapato desconfortável pra manter a pose. sorriso pálido pra selfie.
ontem dei um
boa noite risonho pro frentista, meu cachorro-nelson latiu pra ele. ele
gargalhou pelo nome do canino-amigo: “é o mesmo nome do meu pai”. deixou
escapar um “quanto tempo faz que não dou risada deste jeito. eu me sinto tão
sozinho”. deu vontade de abraçá-lo. e de chorar.
dá vontade
de voltar. parar tudo e descer. voltar e descer sabe-se lá onde. qualquer lugar
onde olhos se toquem em essência. que o AMOR em caps lock mova.

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