quinta-feira, 21 de abril de 2011

muda tudo muda


E o que se faz quando os conceitos mudam, quando a realidade muda e simplesmente não queremos que isso aconteça, que tais coisas mudem, “saiam do lugar”, sejam substituídas por situações novas?... me sinto uma senhora católica, sentada na varanda da sua casa, com sua toalhinha de crochê inacabada no colo e um coque grisalhinho, grisalhinho enrolando as longas madeixas preservadas por décadas e décadas... um vento estranho assobia no meu ouvido, sutilmente me dizendo para dançar conforme a música... ao mesmo tempo, um empurrão debochado me derruba no sofá e, sem pudores, me diz: olha ao teu redor, Maitê Cena, tudo mudou e tu continua aí, querendo que tudo continue sendo como foi há muito tempo e como nunca mais será, pois o tempo passa e assim é o ciclo da vida...

Conto para o meu pai que esses dias minha irmã foi jantar na nossa casa, e que minha mãe “desfez” da presença dela, e que seguiu com sua rotina internetística, e que eu, afim de ter um tempo em família, peço para a minha mãe sair do computador e vir para a sala para ficarmos juntas como antes, e que minha irmã, sem dar tempo da cadeira esfriar, toma o lugar dela na frente do computador, e que minha mãe ficou me olhando com cara de tacho, e que chorei feito uma criança com medo do escuro debaixo do lençol à noite, e que, e que, e que... meu pai dá uma risada sábia que, como um copo dágua, faz descer o choro trancado que estava na minha garganta...

"As coisas mudam, Maitê"... e se eu não quiser que as coisas mudem, pai? e se eu não aceitar que as coisas mudem, pai? e se eu bater pé que eu quero que tudo continue igual, pai? o que vai acontecer?... "As coisas vão continuar mudando, Maitê... está na hora de tu se desligar um pouco de todos ao teu redor e se mimar um pouco"... pronto, pai, fim de papo, senão vou acabar chorando no meio do corredor dos chocolates e isso seria uma heresia... damos risada juntos e seguimos as compras...

digerir algumas mudanças me são tão indigestas... ver nos olhos nublados do meu vô o medo da morte, que hoje bateu na sua porta para avisar que seu único irmão vivo está quase partindo, me dói tanto... será que não devia doer, pai? hein, empurrão debochado, será que eu preciso seguir meu baile sem me atingir com essas mudanças?... e tu, ventinho bobo, que me sopra verdades cinzas, acha que tenho que ter fôlego para dançar conforme a música?

é claro que muitas coisas mudam, mas em essência continuam bonitas coloridas... me despeço da primeira garopaba que minha irmã fará sem mim uma despedida rápida, mas o silêncio dela na fila do subway e a mãozinha magra dela na minha falam mais do que um discurso ou um depoimento no orkut... o "tiiiita mococa do vô" que o meu véio me fala sempre que me dá aquele abraço gostoso é o mesmo de quando os braços dele podiam me tocar para cima num abraço... é isso que vale, é isso que fica, é isso que me faz lembrar que o mundo todo pode mudar, mas o que em essência existe vai comigo por onde eu for...

"E o fim é belo incerto... depende de como você vê... O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só..."

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