acordei enjoada. talvez enjoada de buscar um preenchimento.
um frio na barriga. uma dor. qualquer coisa que ocupe o espaço que ele deixou.
tive um sonho mórbido, mas importante, significativo. sonhei que eu o havia
matado. morte matada mesmo. e quer saber do que mais? matei com as minhas
próprias mãos. cheiro forte de sangue. me senti no filme volver, desesperada
para me livrar do corpo. desmembrei o corpo. sim, parte por parte. havia
sangue, mas não o suficiente dentro do meu ideal, talvez do meu querer mais
raivoso. coloquei as partes dele dentro de um saco preto. a cabeça, antes,
coloquei numa sacola plástica, pros miolos não correrem o risco de sujarem meu
carro. “vou tocar esse saco na porta de algum cemitério.” antes, pensei em
abrir a sacola, talvez acariciar os cabelos, fazer uma prece, o último adeus,
mas não quis. assim, simplesmente não quis. arrastei o saco preto para dentro
do carro e a batida da porta me fez acordar. despertei indiferente. comida e
festa pro cachorro. “chegou o teu bolinho”, disse o tio paulo, dono do bar ao
lado. adoro essa familiaridade natural. estava nos meus planos comprar pão de
queijo e tomar com todynho, mas não consegui negar o carinho dele. tenho estado
ainda mais atenta ao que me rodeia, talvez para virar história para contar,
talvez para me repreencher comigo mesma composta do todo do mundo. e quanto ao
sonho? morreu, morreu, fazer o quê? e o
enjoo? alguma dúvida de que o bolinho curou?

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