sábado, 12 de março de 2011

curativo





12 de março.

já 27 anos.

há menos de 10 metros, cenas literalmente cirúrgicas acontecendo com o meu amado.

e eu aqui, com vontade de comer uma bola de sal, seguida por um ouro branco inteirinho dentro desta minha boca pequena.

"eta, ansiedade" – grita a enfermeira, tão íntima há tanto tempo.

enquanto os curativos são feitos nos seus ferimentos, busco a minha atadura, o meu dersani, o meu antibiótico, o meu iodo aquoso no michel melamed, no chico buarque, no caio... coisa mais piegas escrever sobre um coração, uma alma machucada... coisa mais ridícula comparar os curativos físicos dele com a minha confusão mental, com a minha dor neste meu coração seco.

há dias não durmo bem. 9 dias, mais precisamente... tenho dormido no chão, ao lado dele. tenho tentado aliviar a dor dele, tenho tentado um desapego forçado, no meio disso tudo... tenho "tentado" tanta coisa.

tantos valores mudando, tanta coisa passando por essa minha cabeça que ainda abriga um corte de cabelo fracassado... ainda não é hora de pensar no amanhã, na definição do que fazer... aos poucos, as queimaduras de 2º grau dão lugar a uma pele rosada... aos poucos, o que antes era acamado, vira passos lentamente dados...

"quando tu tiver condições de sair comigo para tomarmos um refrigerante em algum lugar, vamos decidir a nossa situação... enquanto isso, não vamos pensar nisso, combinado?"... ele solta um "combinado" lacrimoso, selando a minha grande mentira... ali, no chão da sala, com o meu dadivoso colchão de molas, na escuridão quebrada pela luz da tv, penso em nós dois em silêncio... ele faz o mesmo, olhando para a parede, logo depois desse "combinado" lacrimoso...

hoje, essa continuação de uma vida diáfana me exige uma resignação, uma aceitação e paciência sem tamanho...

a vida é pra isso.
vamo que vamo.

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